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Perdas de energia: porque é que paga mais do que consome
Nem toda a energia produzida chega ao consumidor. Pelo caminho há perdas técnicas nas linhas de transporte e distribuição (efeito de Joule, transformadores) e perdas comerciais, como medições incorretas e fraude. Em Portugal, o coeficiente médio anual de perdas ronda os 8 a 10% para a eletricidade.
Estas perdas são repartidas pelos consumidores através de coeficientes regulados, que aparecem implicitamente no preço do kWh faturado. Não são uma linha da fatura: estão dentro do preço.
O que são perdas técnicas?
São inevitáveis e resultam da física do transporte. Quando a corrente percorre um condutor, parte da energia dissipa-se em calor: é o efeito de Joule. O mesmo acontece nos transformadores que elevam e baixam a tensão ao longo do percurso.
Quanto maior for a distância e quanto mais baixa for a tensão, maior é a proporção de energia que se perde pelo caminho. É por isso que a energia viaja em alta tensão: para reduzir a corrente e, com ela, as perdas.
E as perdas comerciais?
Não têm origem física. Resultam de energia que é efetivamente consumida mas não é corretamente medida ou faturada: contadores avariados, erros de leitura, ligações irregulares.
Do ponto de vista do sistema, o efeito é o mesmo: há energia que entrou na rede e não foi cobrada a ninguém, e por isso entra no mesmo cálculo.
Porque é que isto aparece na minha fatura?
Porque o comercializador tem de comprar mais energia do que aquela que lhe vai faturar. Se a sua empresa consome 100 MWh, ele precisa de adquirir ao mercado um valor superior para que 100 MWh cheguem ao seu contador.
Essa diferença é aplicada através de coeficientes de perdas regulados, que variam com o nível de tensão e com o período horário. O resultado é que o preço por kWh que paga já inclui a energia que se perdeu para lhe entregar aquele kWh.
Há alguma coisa que dependa da empresa?
Há um fator, e é estrutural: quanto mais próximo da rede de alta tensão estiver o ponto de consumo, menores são as perdas imputadas. Uma instalação ligada em média tensão tem coeficientes mais favoráveis do que uma ligada em baixa tensão.
Para empresas com consumo elevado, isto entra na conta de uma eventual alteração do ponto de ligação, uma decisão de investimento, não uma renegociação de contrato, mas que tem efeito permanente na fatura.
O que é sempre verificável, e vale a pena verificar, é se os coeficientes aplicados correspondem efetivamente ao nível de tensão da instalação. É o tipo de erro que passa despercebido durante anos.
Porque é que isto importa ao comparar propostas?
Porque nem todas as propostas apresentam o preço da mesma maneira. Há comercializadores que indicam o preço da energia já com perdas incluídas e outros que apresentam o preço de mercado e aplicam as perdas depois.
Duas propostas com o mesmo número por MWh podem, por isso, corresponder a faturas diferentes. Pôr as duas na mesma base antes de comparar é metade do trabalho de uma análise séria.
A Tarifa de Acesso às Redes é fixada anualmente pela ERSE. Os coeficientes de perdas e os encargos de sistema são publicados pela REN. Os preços grossistas citados vêm do OMIE, mercado diário MIBEL.